Entenda a parceria entre Igreja Católica e prefeitura que já acolheu 90 pessoas desde o dia 30 de março em três casas de retiro cedidas pela arquidiocese. Número pode chegar a 150 pessoas

Cama confortável, alimentação na hora certa e cuidados de higiene garantidos. Espaços amplos, privacidade e atividades durante o dia. É esta a realidade encontrada pelas cerca de 90 pessoas em situação de rua que já foram acolhidas até agora nas três casas de retiro cedidas pela arquidiocese e outras duas congregações religiosas católicas de Londrina para a Secretaria de Assistência Social no combate à pandemia do novo coronavírus. “São espaços destinados ao isolamento social dessa população, são pessoas que não estão infectadas [com o novo coronavírus] e estão ali para ficarem isoladas”, explica Deusa Favero, gerente da Cáritas Arquidiocesana, entidade da Igreja responsável pela parceria com a prefeitura.

 

Casa de acolhida dos homens

A população de rua está dividida em três perfis diferentes: um espaço destinado a idosos, um destinado a homens e outro a mulheres e crianças. A casa de acolhida dos idosos, por se tratar de população prioritária no isolamento social, foi a primeira a receber as pessoas, seguido dos outros dois espaços. A população começou a ser acolhida no dia 30 e está sendo destinada gradativamente.

 

A prefeitura é quem faz o encaminhamento das pessoas a partir da demanda do Centro Pop, serviço municipal que atende população em situação de rua. “São transferidas pessoas que já estavam na Casa do Bom Samaritano e na Casa de Passagem, ficam ali por sete dias para avaliar, ver como estão de saúde e depois vem pra cá”, conta Flávia Angélica Andrease, assistente social coordenadora do Centro Pop e da Abordagem Social, que está atuando na casa de acolhida dos idosos. Esse caminho será feito por todas as pessoas acolhidas nas casas da arquidiocese.

 

Café da tarde no refeitório da casa de acolhida dos idosos

Para a assistente social, a parceria com a Igreja é importante pois possibilita um acolhimento com dignidade à população de rua. “Se não tivesse [a parceria] não sei como seria. Aqui eles estão sendo bem acolhidos. Alguns municípios estão acolhendo população de rua em estádios, ginásios, lugares que são insalubres. Mas é preciso acolher com dignidade, não é qualquer lugar. Os três lugares que a Igreja cedeu são ótimos, tem toda estrutura, cozinha, equipamentos, imagine se tivéssemos que levá-los para o Moringão, por exemplo, não ia ter condição”, destaca Flávia.

 

Trabalham nas casas oito educadores sociais divididos em turnos de 4 horas, um auxiliar de serviços gerais, duas merendeira e uma equipe técnica composta por três pessoas, entre coordenador, assistentes sociais, psicólogos e orientadores sociais. A equipe de educadores sociais também é responsável por ministrar oficinas como jogos, música, teatro e dança.

 

Segundo Flávia, até agora não foi preciso fazer abordagem da população nas ruas, as casas de acolhida estão recebendo a demanda das pessoas que ligam ou vão até o Centro Pop. “Esta é uma rede de serviços que já é feita no município, e agora foi ampliada.”

 

Ação da Prefeitura

Na parceria entre arquidiocese e prefeitura, a Igreja cede os espaços e a secretaria arca com as despesas. Na primeira semana de acolhimento, entre os dias 30 de março e 6 de abril, todo material utilizado, como alimentos, roupa de cama e banho e materiais de higiene, foi fornecido pelas doações recebidas pela Igreja Católica no Espaço Dom Bosco da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, ponto que a arquidiocese montou para arrecadação de doações.

 

Merendeiras das escolas municipais estão cozinhando nas casas de acolhida

A partir desta semana a prefeitura vai enviar produtos comprados por licitação. “Todos os trabalhadores e a responsabilidade é da Secretaria de Assistência. Então quando acabar esse período, o que vai ser feito, para onde as pessoas serão encaminhadas, os encaminhamentos finais é responsabilidade da secretaria”, explica Josiane Nogueira, diretora da proteção social especial do município.

 

 

 

Estrutura das casas de acolhida

A população está sendo acolhida em casas utilizadas pela Igreja Católica para promover retiros de padres, religiosos e leigos. São lugares ondeas pessoas estão divididas em quartos duplos, com banheiro no quarto, ou quartos coletivos amplos com camas espaçadas para garantir o distanciamento social. Os espaços possuem refeitórios e cozinhas equipadas e duas das casas disponibilizaram também lavanderia. Os espaços externos são amplos, com gramado, quadra e varanda. “As pessoas estão comparando, dizem que antes [no outro abrigo em que estavam] estava 70%, agora está 100%”, conta Flávia.

 

Casa de acolhida dos homens

Em cada uma das casas, além dos profissionais da prefeitura, há uma pessoa de referência que trabalha ali. Duas das casas também contam com o trabalho voluntário de irmãos da Toca de Assis, congregação religiosa que atua diretamente com a população de rua em Londrina há 17 anos.

 

Maria José de Lima Prado é funcionária da Mitra Arquidiocesana de Londrina e trabalha numa das casas de acolhida. O acolhimento trouxe mudanças na sua rotina, mas, segundo ela, a convivência é tranquila. “Eu saio aqui eles me chamam pelo nome”, diz Maria. Ela conta também que ter a presença dos irmãos da Toca de Assis a deixou bem tranquila.

 

Para ela, é um tempo de quaresma vivido profundamente. “É um olhar de misericórdia, ver o rostinho de Jesus em cada rosto dessas pessoas. Não estou podendo receber a Eucaristia, cheguei a chorar. Mas aqui é Jesus de uma outra forma. É Jesus que fala: ‘estive preso e não foi me visitar, estive doente…, e Ele está aqui agora, na pessoa que fala um bom dia pra mim: ‘Oi, dona Maria’”, conta.

 

O toque especial da Igreja Católica

As duas casas de acolhida que recebem, uma os homens e outra as mulheres, contam com o reforço da Toca de Assis. São dois irmãos na casa dos homens e duas irmãs na casa das mulheres, que chegaram antes mesmo da população em situação de rua para fazer a acolhida. “Estamos em unidade Igreja e município. O trabalho aqui é desafiador, porém já temos o jeito de lidar pois trabalhamos diretamente com os irmãos mais pequeninos que se encontram em situação de rua. Podemos levar o que temos de experiência e vejo que a casa está caminhando muito bem, há uma harmonia, unidade”, conta irmão Israel do Santíssimo Sacramento, que está atuando na casa de acolhida dos homens.

Junto com o irmão Israel, homens fazem horta na casa de acolhida

 

“A gente chegou, foi conhecendo o perfil de cada um. O primeiro impacto foi de conhecer para ver até onde pode ir com eles e como lidar com cada pessoa. Sabemos que aqui não é lugar terapêutico, é para isolamento por conta da pandemia do coronavírus, então o tratamento é um pouco diferente, mais aberto a escutá-los, porque não estão aqui para se tratar”, conta irmão Israel se referindo ao fato de que grande parte da população de rua é dependente químico.

 

O irmão explica que eles atuam dando ofícios para as pessoas. “Cada pessoa tem um lugarzinho específico, seja varrer, seja recolher [o lixo] no carrinho, outro vai escrever o cronograma. Para ele se sentir bem, se sentir contribuindo”, conta. Inclusive, por proposta do irmão, os homens acolhidos montaram uma horta, já plantaram alface, cebolinha e rúcula. A ideia agora é criar algumas galinhas.

Irmã Israel do Santíssimo Sacramento, da Toca de Assis, atua junto à casa de acolhida dos homens

 

O trabalho é fundamental, explica o irmão, e eles mesmo sabem. “É a chamada laborterapia. Muitos me falam: ‘irmão, hoje vou dormir bem porque a gente fez alguma coisa e isso vai gerar frutos’. E eles estão pensando também nos irmãos que estão sendo acolhidos nas outras casas, porque quando tiver produzindo a gente manda para lá.”

 

“Combinei com eles também de fazer um mutirão, me coloquei junto também, 30 minutos por dia. Falo da importância de manter o lugar bonito, zelar pelo ambiente. Eles mesmo enxergam a graça e o amor de Deus estando aqui. Em cada quarto tem duas pessoas e cada quarto tem seu banheiro.

 

É um carinho de Deus em meio à pandemia, literalmente, imagina de onde vieram, viviam e chegam aqui, não tem como não ver que é graça e é amor nas nossas vidas, para mim também”, conta o irmão.

 

O irmão fala que algo muito impactante para eles foi o fato de terem seis refeições por dia: café da manhã, um cafezinho às 10, almoço, café da tarde, janta e ceia. “Parecia que estavam na final da Copa do Mundo e o Brasil tinha sido campeão, foi bonito de ver o brilho nos olhos.” Israel lembra que antes de cada refeição, rezam por aqueles que doaram os alimentos.

 

O trabalho, apesar de ser na Igreja Católica, independe de religião. “Para nós isso é muito normal, antes da gente ver qual é a religião a gente vê a pessoa, o ser humano, é um filho de Deus, e se é um filho de Deus precisamos estar juntos”, fala irmão Israel.

 

Num dos dias, o irmão conduziu um momento de catequese e adoração. Foi tão bem recebido que eles pediram para fazerem diariamente. “O Rafa [um dos acolhidos] falou que é testemunha de Jeová, perguntou se eu me importava se ele não fosse. Falei: ‘Meu irmão, de maneira alguma, não é por isso que você vai ter tratamento diferente’. Temos alguns irmãos evangélicos que participam também. Algumas músicas que cantamos, inclusive, são evangélicas. Não tem essa coisa de excluir, temos que incluir”, conclui.

 

Na casa dos idosos também, a pedido dos acolhidos, o padre Eric Vinícius Pinheiro Barbosa SAC, celebrou a missa no domingo, dia 5.

 

Juliana Mastelini Moyses
Pascom Arquidiocesana

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